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Os Anos 80 acabaram em 1994

This article was written in February 2016 for #Cardinal, a former portuguese pop-culture blog.


 

Os Anos 80 acabaram em 1994. À partida pode parecer parvoíce. E à chegada também. Mas se pensarmos um pouco (não demasiado), até faz sentido.

A teoria

Quem as viveu, sabe que há épocas que não podem ser definidas exclusivamente por datas. Os Anos 80 são um lugar mítico onde os heróis têm biceps como os do Rambo, o Sinhozinho Malta está certo ou está errado e a vida sabe a bombocas. A teoria que pretendo aqui defender é a de que a cultura dos Anos 80 só terminou verdadeiramente em 1994. As pessoas mais sensatas dirão que, mesmo que os Anos 80 se tenham estendido até à decada de noventa, não faz sentido precisar o ano exacto no qual eles terminaram. Como quero na mesma defender esta teoria, as pessoas mais sensatas não são o público alvo deste artigo.

O cinema almofada dos Anos 80

Nos Anos 80, o cinema era uma almofada segura na qual nos podíamos encostar, relaxar e viver aventuras. Graças ao E.T. ficámos a saber que os extraterrestres, se andarem por aí, são uns tipos fofinhos com dedos que servem de luz de presença nas noites em que não conseguimos dormir. O Top Gun, o Assalto ao Arranha-Céus e o Predador mostraram-nos que há por aí gente e bicharada má, mas enquanto houver homens de barba rija prontos para os aviar estamos seguros. O Regresso ao Futuro assegurou-nos de que por mais que o tempo passe (ou des-passe), aquilo que verdadeiramente muda são os electrodomésticos.

A década de noventa começou e Hollywood continuou a contar-nos histórias claras, com um herói pelo qual podíamos torcer e com valores sólidos que nos faziam confiar na sociedade em que vivíamos.

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Bruce Willis em Hudson Hawk (1991) ainda estava tranquilo nos Anos 80.

O ano em que traíram o Rambo

Em 1994, aconteceu algo diferente: o Tarantino pôs-se com merdas. Ao serviço da sétima arte, a Maria de Medeiros disse ao Bruce Willis que parecia um mongolóide a falar e o John Travolta foi assassinado com uma rajada de metralhadora enquanto lia na casa de banho. Nós, desesperados, tentámos perceber quem era o herói da história: o gangster especialista no sistema métrico europeu ou o pugilista cuja namorada acha que as mulheres devem ter barriguinha? À medida que o filme foi avançando, para nosso terror cinéfilo, começámos a perceber que na verdade nem havia bem uma história: o filme era um conjunto desordenado de cenas de bandidos com crises de identidade, massagens aos pés e moscas apanhadas na teia do Zed. Dos valores sólidos, desistímos assim que vimos o Travolta a esfaquear a Uma Thurman com uma seringa.

Em 1994, saí do cine-teatro do Monumental com uma lágrima no canto do olho e a certeza de que o E.T. nunca mais iria voltar à Terra.

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Bruce Willis em Pulp Fiction (1994). Tinha acabado de ser atingido pelos Anos 90.

O sucesso popular de Pulp Fiction abriu a porta para que, a partir de 1994, outros filmes começassem a corromper o formato clássico de Hollywood e a destruir os bons valores americanos que o Rambo tanto lutou para defender. Usando, entre outras histórias, a de um sobredotado com incontinência e a de um “coach” misógeno com cabelo de menina, Magnólia avisou-nos que o caos das nossas vidas não vai parar enquanto não ganharmos juízo. Fight Club usou porrada-state-of-the-art, para sugerir que a falta de motivação que sentimos quando passamos a vida enfiados num escritório pode ser compensada se andarmos à bordoada uns com os outros. Fargo insinuou que há por aí muito boa gente capaz de fazer marotices para ganhar dinheiro, incluindo triturar pessoas em cortadores de lenha. O Matrix sugeriu que somos todos escravos controlados por forças invisíveis, mas deu aos geeks de todo o mundo esperança de que um dia vão poder voar e ter uma namorada vestida de vinil.

A partir de 1994, o cinema deixou de ser a tal almofada segura. Nós tornámo-nos mais sofisticados e um pouco mais neuróticos.

Em 1994 começaram a dar-nos música

Na música, o fenómeno foi de certa maneira inverso ao do cinema: em 1994 a música com personalidade criada na garagem do bairro deu lugar à música fast-food criada em reuniões de produtores. Durante os Anos 80, até 1994, ouvíamos bandas e artistas com atitude como os Guns N’ Roses, AC/DC, Metallica, Aerosmith, o Prince, R.E.M. e, um pouco mais tarde, os Nirvana que criaram um fantástico novo estilo de música com ambiência depressiva e temática suicída. Em abril de 1994, Kurt Cobain suicidou-se mesmo e nós não quisémos mais usar camisas à pescador. Nesse mesmo mês, num estúdio em Londres, uma produtora terminou as audições que permitiram seleccionar cinco jovens inglesas de entre mais de quatrocentas candidatas e formar o que viria a ser o maior fenómeno pop desde os Beatles: as Spice Girls. Poderíamos sugerir que Kurt Cobain se suicidou depois de ouvir “Wannabe”, mas seria de mau gosto e a verdade é que o primeiro single das Spice Girls acabou por só ser lançado dois anos depois.

Em qualquer caso, a partir de 1994, a música boa de cortar os pulsos, começou a dar lugar à música má de ir ao quarto procurar discos antigos dos Iron Maiden. Os Anos 90 musicais foram um “medley” de britneys aguileras, christinas spears, take that street boys e gatinhas atómicas, orquestrado por produtores musicais.

LOS ANGELES, CA - OCTOBER 27: Duff McKagan, Slash and Axl Rose of Guns 'n' Roses perform in concert at the Ritz on February 2, 1988 in New York City. (Photo by Larry Busacca/WireImage)

Em 1993, os Guns N’ Roses deram o último concerto antes da banda se dividir. A música rebelde dos Anos 80 estava a dar as últimas e o Slash aparentemente também.

Em 1994, as Spice Girls foram “embaladas” por uma equipa de produtores e deram início aos Anos 90 musicais, a época de ouro da música de plástico.

Em 1994, as Spice Girls foram “embaladas” por uma equipa de produtores e deram início aos Anos 90 musicais, a época de ouro da música de plástico.

Conclusão, que se faz tarde

Podia olhar para o que aconteceu no desporto e na televisão e tentar mostrar que 1994 foi um ano de viragem também nessas áreas, mas acho que não devo ser eu a destruir a minha própria teoria. Em artigos futuros irei mostrar que os Anos 80 começaram ainda na década de setenta, os Anos 90 duraram sete longos anos e quem já teve o privilégio de ver o vocalista dos Future Islands em palco, sabe que o rock alternativo do Paleolítico felizmente ainda não acabou.

© 2016 João Abril de Abreu

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