in Documental

TEDxLisboa, which is part of the TEDx global movement, is a non-profit idea-sharing series of conferences that I help organize with other volunteers, in Lisboa. In 2014, for several months, I photographed the process that led to that year’s conference and then wrote about it. All text is Portuguese.


 

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Na sala de estar de um apartamento das avenidas novas no centro de Lisboa, Manuel Faria, músico e teclista dos Trovante, ajuda Jorge Nuno Silva, matemático, a ligar o computador a um ecrã LCD. Nuno Queirós Ribeiro, chef de cozinha, anda para trás e para a frente tentado decorar o seu discurso. Henrique Leitão, historiador de ciência a quem foi recentemente atribuído o prémio Pessoa, aguarda pacientemente a sua vez. Estamos no primeiro domingo de Setembro, a cerca de mês e meio da conferência TEDxLisboa de 2014. Ainda é Verão, mas lá fora chove a cântaros e a cidade parece deserta.

Adelina Moura, professora de português e francês, veio de Braga de propósito no primeiro comboio Alfa do dia e ensaiou logo de manhã. A meio da tarde apanha o comboio de regresso. Paulo Condessa, actor e formador, conversa com Joana Sousa, filósofa, sobre a vontade, por vezes arrogante, que as pessoas mais jovens têm de mudar o mundo. Ambos esquecem-se que a pausa para almoço está quase a terminar. Entre oradores e organizadores da TEDxLisboa estão mais de quinze pessoas na sala.

Da América dos ricos para o antigo Cinema Roma

A primeira conferência TED foi em 1984 na Califórnia e focou-se no trio de temas Tecnologia, Entertenimento e Design que deu origem à sigla TED. Durante mais de vinte anos, só uma pequena elite pessoas seleccionadas pelos organizadores e dispostas a pagar mais de cinco mil euros teve a oportunidade de assistir às conferências TED e ficar a conhecer em primeira mão as ideias inovadoras dos pensadores, empreendedores e celebridades, como Bono e Al Gore, convidados para falar na TED.

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A decisão que fez com que o nome TED se tornasse mundialmente conhecido foi tomada em 2006: os organizadores decidiram publicar na internet algumas das apresentações para ver como seriam recebidas pelo público. O sucesso foi imediato e em poucos anos as apresentações TED tornaram-se um ícone da cultura ocidental do inicio deste século. A apresentação mais popular já foi vista na internet 29 milhões de vezes. Aproveitando este sucesso, em 2009 a organização criou um sistema de licenças que permite a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, organizar uma conferência com a marca TEDx desde que siga um determinado número de regras, tal como a obrigatoriedade de filmar e partilhar as apresentações na internet.

Foi logo nesse ano que, em diferentes pontos de Portugal, várias pessoas pediram licença para realizar uma conferência ao estilo das TED. Cristina Marques da Silva, que pouco tempo antes tinha assistido ao vivo na Califórnia a uma conferência TED, pediu a licença para realizar uma conferência na capital portuguesa com o nome TEDxLisboa. Recrutou um pequeno grupo de amigos e conhecidos entusiastas das apresentações TED e juntos começaram a planear a conferência de 2010 que, durante um dia inteiro, encheu o auditório da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em palco estiveram mais de vinte oradores portugueses, a maior parte deles desconhecidos do público, que partilharam ideias sobre reciclagem, integração social, design, estatística, medicina e genética, a importância da colaboração, entre outros assuntos.

Apesar do sucesso da primeira conferência, durante os três anos seguintes a equipa da TEDxLisboa organizou apenas eventos para pequenas audiências. Foi só em 2013 que Cristina voltou a formar a equipa necessária para enfrentar o desafio de organizar uma conferência para uma grande audiência.  O local escolhido para a segunda conferência foi o antigo cinema Roma, que actualmente se chama Fórum Lisboa e é sede da Assembleia Municipal de Lisboa.

Tal como em 2010, a sala encheu e por isso a equipa decidiu organizar uma nova conferência, no mesmo local, no ano imediatamente a seguir, focada no tema da educação. A data marcada foi 18 de Outubro de 2014, mas o planeamento, e especialmente a escolha e preparação dos oradores, começou bastante tempo antes.

Quem se chega à frente?

No fim de Abril do ano passado, ainda ninguém sabia quem seriam os oradores da última TEDxLisboa. Às 21:30 da última terça-feira desse mês, depois de um dia normal de trabalho, estavam já mais de dez voluntários na sala de estar de Cristina – o quartel general improvisado do TEDxLisboa – mas continuava a chegar gente. A cerca de seis meses da data marcada, a equipa organizadora reunia pela primeira vez para começar oficialmente a preparar a conferência. Várias pessoas eram novas na equipa e por isso a reunião começou com as apresentações.

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Joana e Inês, irmãs, são estudantes e juntaram-se à equipa por sugestão de uma tia que vive na Bélgica e que ajuda a organizar uma conferência TEDx em Bruxelas.  Marta e Paulo são casados e, depois de assistirem ao TEDxLisboa em 2013, decidiram voluntariar-se juntos. Marta trabalha em marketing digital e Paulo é engenheiro informático. Ana, Raquel e Mafalda vão reforçar a equipa de design. As idades dos mais de quinze voluntários presentes na reunião vão desde os 18 até aos 60 anos.

Um mês antes desta reunião faltava gente para trabalhar na maior parte das áreas necessárias à organização de uma conferência e a equipa do TEDxLisboa decidiu pedir ajuda pelas redes sociais. Mais de cem pessoas voluntariaram-se para ajudar. Algumas destas pessoas estiveram presentes nesta reunião. Outras, combinaram ajudar apenas na altura da conferência. Na prática, nada estava garantido. Todos os presentes estavam ali em regime de voluntariado e por isso tudo o que se viria a fazer estava dependente da vontade de cada um e da soma da vontade de todos.

Durante os meses seguintes seria preciso encontrar e convidar os oradores, contactar e angariar parceiros que fornecessem os recursos necessários, criar e implementar um plano de divulgação da conferência, fazer vídeos promocionais, refazer a página de internet e muitas outras coisas. Apesar do objectivo final ser apenas apresentar ideias num palco, para que isso fosse possível seria preciso fazer isto tudo. Encontrar pessoas que saibam e queiram fazê-lo sem remuneração nunca é fácil. Ao longo dos meses seguintes a motivação dos voluntários iria sofrer reveses e alguns afastar-se-iam da organização. Outros, iriam solidificar o seu lugar na equipa.

Para os voluntários responsáveis pelas apresentações, em Abril a pressão começava a crescer para recrutar oradores: sem oradores não há conferência e se os oradores não forem bons comunicadores, a conferência não será o que o público espera de uma TED. Apesar de haver já alguns nomes em cima da mesa, a equipa decidiu abrir candidaturas on-line. Uma das pessoas que se candidata é o músico e teclista da banda Trovante, Manuel Faria, que propõe mostrar em palco que o som é muito mais importante do que aquilo que pensamos. Outro dos candidatos é Cláudio Fernandes, professor de matemática, que envia um texto emocionado sobre uma experiência que viveu recentemente no ensino. Ambos seriam convidados a participar na TEDxLisboa.

Um modo diferente de comunicar

Em Setembro, os oradores do TEDxLisboa de 2014 já estavam escolhidos. Depois de discutir o tema das apresentações por video conferência, cada um dos oradores aceitou o desafio de fazer um primeiro ensaio ao vivo no primeiro Domingo desse mês – o local, novamente, é a casa de Cristina e a audiência é a equipa organizadora e os restantes oradores. Henrique Leitão e Jorge Nuno Silva trabalham na mesma universidade e por isso já se conheciam, mas para todos os restantes oradores, esta é a primeira vez que se encontram.

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Adelina Moura foi quem veio de mais longe: logo de madrugada fez mais de 300 km para vir a Lisboa ensaiar. Na TEDxLisboa irá tentar passar a ideia de que a tecnologia deve ser incorporada nas estratégias de ensino e não proibida. Em conversa informal, Adelina conta a alguns dos presentes que nos anos 90, para experimentar pela primeira vez a internet, a sua turma de português passou uma aula a tentar aceder ao na altura primitivo site da revista Playboy. Os organizadores convencem-na de que essa é uma história que vale a pena incluir na apresentação e Adelina aceita a sugestão.

Os ensaios foram introduzidos em 2013 e revelaram-se desde logo fundamentais não só para melhorar o formato das apresentações como também para ajudar os oradores a definir a ideia fundamental da sua apresentação – a ideia que, tal como diz o slogan das TED, “vale a pena espalhar”.  A consequência não premeditada de ensaiar em grupo é que se gera um espírito de equipa e os oradores acabam por ajudar-se uns aos outros a melhorar as apresentações. Em 2014, a equipa repetiu e aperfeiçoou esta “receita” e os ensaios passaram a ser um dos pontos altos da preparação de cada evento TEDxLisboa.

Encontrar pessoas com ideias inovadoras que sejam ao mesmo tempo bons comunicadores é um dos grandes desafios da organização, tanto mais que foi decidido pela equipa só aceitar oradores que falem português. Essa espécie de Santo Graal das TED – pessoas que têm ideias inovadoras e que as sabem comunicar – é difícil de encontrar até para o próprio TED americano que, apesar de ir buscar oradores a qualquer parte do mundo, começa a treina-los seis meses antes de cada conferência. O próprio Chris Anderson, o multimilionário dono da marca TED, faz questão de participar activamente nesses ensaios criticando as apresentações.

O que tornou as apresentações TED num fenómeno de popularidade foi o facto de pegarem em assuntos que tradicionalmente eram discutidos apenas por especialistas e os apresentarem de uma forma pessoal que faz com que qualquer pessoa se ligue emocionalmente ao orador e à ideia que ele quer transmitir.

Um dos objectivos dos ensaios do TEDxLisboa é exactamente ajudar, e por vezes convencer, os oradores a falar de forma pessoal sobre os assuntos e, quando necessário, sobre si mesmos. A maior parte das pessoas que é convidada pelo TEDxLisboa para ser orador está habituada a comunicar oralmente e muitos fazem-no profissionalmente – é o caso dos professores. No entanto, a maioria fá-lo de forma impessoal: o assunto é o assunto e a pessoa que o apresenta não é para ali chamada. É com alguma relutância, e por vezes desconforto, que alguns dos oradores aceitam a proposta feita pela equipa do TEDxLisboa de incluir historias pessoais na sua apresentação. Cláudio Fernandes, professor universitário de matemática, foi a palco falar da disciplina de Competências Transversais para Cursos Tecnológicos, um assunto aparentemente técnico, e acabou por contar a setecentas pessoas como fazer mestrado na Cidade do México mudou a pessoa que ele é. Uma das apresentações mais emotivas de 2014 foi feita por este matemático.

Motor a água

A duas semanas do grande dia, passava já da meia noite quando a equipa organizadora da TEDxLisboa chegou à praça central do centro comercial Colombo. O centro tinha acabado de encerrar e foi precisa uma autorização especial para entrar a esta hora. À espera, estavam já cerca de trinta dançarinos de uma escola de dança da zona de Lisboa que aceitou colaborar com a TEDxLisboa. A equipa de reportagem da RTP chegaria pouco tempo depois.

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Este foi o ensaio geral da flashmob que ocorreu no Sábado seguinte a uma hora em que o centro comercial costuma estar cheio de gente. A equipa de reportagem iria criar uma peça para o telejornal do Domingo seguinte que os organizadores do TEDxLisboa esperavam que ajudasse a mobilizar o público e garantir que a conferência de 2014 não passava despercebida. Inesperadamente, no dia da flashmob, os setecentos lugares do Fórum Lisboa já tinham esgotado.  No ano anterior, a equipa teve de esperar com alguma ansiedade até vésperas da conferência para ter a garantia de que a sala estaria cheia.

Para os organizadores, esperar que as pessoas – oradores, voluntários e público – adiram à TEDxLisboa acaba por ser sempre um acto de fé, especialmente porque há muito pouco dinheiro envolvido. Para quem vê de fora, a existência de um evento assim pode parecer estranha. ‘Mas pagam-te alguma coisa?‘ é das primeiras perguntas que um membro da equipa costuma ouvir assim que fala na sua participação na TEDxLisboa. Antes de continuar a conversa, família, amigos e conhecidos querem esclarecer se todo aquele tempo passado a organizar a conferência é remunerado. A resposta ‘não’ faz algumas testas franzir com cepticismo. ‘Mas se a sala está cheia isso deve dar lucro, não?‘ é a pergunta que se segue e que tem como objectivo ajudar a perceber qual é afinal o “combustível’ que faz mover este evento.

A verdade é que o dinheiro resultante da bilheteira não chegaria sequer para cobrir os custos de produção das conferências TEDxLisboa. A regras TEDx permitem cobrar até cem dólares (cerca de oitenta euros) por cada entrada, mas a decisão da equipa TEDxLisboa foi, desde os primeiros eventos, tentar manter o preço da entrada o mais baixo possível encontrando empresas que ofereçam os recursos necessários à organização do evento: iluminação do palco, captação de som, divulgação, catering, etc. Em 2013, esse objectivo não foi totalmente alcançado, houve prejuízo e Cristina acabou por dinheiro do seu próprio bolso. Em 2014, as coisas correram melhor e a equipa conseguiu cobrir todos os gastos mantendo um preço de cinco euros por bilhete.

De qualquer modo, as conferências TEDx não podem ter fins lucrativos. Quando se tornou dono e curador das conferências TED, Chris Anderson declarou, usando palavras bastante cruas, que o espírito das conferências é “verdade, curiosidade, diversidade, sem vendas ou tretas corporativas”. Para tentar manter este espírito e garantir que os programas das conferências TEDx não são condicionados por interesses financeiros, estas conferências são sujeitas a uma série de regras: o lucro é proibido – o dinheiro cobrado à audiência para assistir ao evento tem de ser aplicado directamente na realização do evento – e os oradores não podem receber cachê, nem promover produtos e empresas durante as apresentações. Se estas regras não forem cumpridas, a equipa organizadora pode perder a licença.

Perante a impossibilidade de usar o dinheiro como motivador, os organizadores têm de acreditar que há outros tipos de motivação em jogo.  Ao longo dos vários eventos TEDxLisboa, houve candidatos a oradores e candidatos a parceiros que ficaram desmotivados pelo rigor das regras e acabaram por escolher não participar. Mas para os mais de cinquenta oradores que já participaram na TEDxLisboa, a oportunidade de divulgar uma ideia que consideram importante foi motivação suficiente.

Em 2014, voltou a valer a pena essa fé na mobilização social que todos os envolvidos na TEDxLisboa têm vindo a ter. No dia 18 de Outubro, após seis meses de trabalho, um a um, os dez oradores subiram ao palco e partilharam as suas ideias apoiados por uma equipa de mais de quarenta voluntários. Como de costume, nenhuma destas pessoas recebeu dinheiro em troca do seu tempo. Desde há muito tempo que a humanidade sonha com a invenção de um motor a água, ou seja, um motor que use uma fonte de energia grátis e ilimitada. O “motor” que faz andar a conferência TEDxLisboa também não anda a água; anda graças a uma mistura complexa de motivações pessoais para a qual os organizadores não têm uma receita. O que a TEDxLisboa confirma é que nem só o dinheiro conta para mobilizar as pessoas. Há por aí “energias alternativas” que podem e estão a ser usadas.

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© 2014 João Abril de Abreu

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